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Memorial do Sarmento

Segunda-feira, Abril 23

BOLETIM INFORMATIVO - O CULTO RODOVIÁRIO


O progresso em Angola espelha-se no avanço das comunicações e transportes. Depois de trinta anos de guerra, com estradas destruídas, sem acessos ou vias de comunicação, a rede viária está a ser construída e recuperada à velocidade da China. Literalmente. Os trabalhadores chineses são os que tradicionalmente fazem obras a preços imbatíveis, pelo que dominam o mercado angolano, em quantidade e fraca qualidade. São trabalhadores importados de uma só folga por mês, que se confundem com a faixa mais pobre de Angola. Antítese dos ocidentais privilégios, a cultura da Muralha não vive, só trabalha, qual formiga que goza na cara da europeia cigarra.


Os transportes públicos começam a despertar, num bocejo dominguesco de quem põe mais uns minutos no alarme. Os autocarros estão atulhados de passageiros, e não constituem em muitos casos uma alternativa viável aos táxis azuis que abundam na asfixiante azáfama asfaltada. Baptizados com divertidos nomes cénicos, épicos ou bélicos, estes veículos transportam quantos couberem, e usam como faixa Bus as bermas de terra ou lama ou lixo. Uns com vidros fumados, outros com os vidros pintados de preto a lembrar, quem diria, vidro fumado.


Por enquanto, deslocar-se em Luanda pesa no dia. São horas de trânsito e manobras taxísticas para poder chegar a qualquer lado. As estradas incham, desincham, primem e comprimem, num acordeão de velocidades que desafina a esquizofrenia buzinante dos motores nervosos e engasgados. Num dia de chuva, alguns rios galgam estradas e bloqueiam quilómetros de acessos, obrigando a  longos e desesperados retrocessos. As estradas foram recuperadas num lençol de alcatrão mas a drenagem nem por isso foi pensada, o que provoca margens de lama e lixo, às vezes até dois dias a seguir. Também, como não existe saneamento básico generalizado, nos piores dias do ano as fossas vêm cá acima dizer olá.

Apesar deste Caos desobediente e de um regime esporádico de contra-mãos, as velocidades médias devem rondar os cinquenta ou sessenta quilómetros por hora. Muito longe dos nossos padrões de segurança de capacete e passadeira, Angola caminha em excesso de lentidão para uma rápida mudança de faixa. A verdade é que apesar das mais horas de trânsito, há menos litros de stress, e apesar dos mais quilómetros de atrasos há menos estatísticas fataloviárias.

Sábado, Abril 21

Terça-feira, Abril 17

PARTE II - DA JANELA ANOITECERAM AS CORES

Domingo, Abril 15

O MEU QUARTO E A LUZ DELE

Sábado, Abril 14

O COMÉRCIO


Depois de muitos anos de guerra, o comércio começa devagar. Mesmo em Luanda, não é a cada esquina que se encontram jornais, cafés, quiosques, ou tudo o que de rotineiro há no Tugal. No meu caminho casa-trabalho-casa, passo por vários bairros que devagar despontam. São pequenas iniciativas locais que improvisam um estabelecimento, longe da nossa ideia de loja e conceito de imagem, sem cartões de visita ou páginas de internet. 

Ainda assim, vai-se desenhando uma Angola lenta de transição rápida, e quase se lê um futuro cheio de espalhados e criativos pontos comerciais.

PEÇAS AUTOMÓVEIS - GENUÍNAS

REPARAÇÕES E MONTAGENS

FACANDA - IMPORT / EXPORT

FOTOCÓPIA & FOTOGRAFIA



PÁGINAS AMARELAS

PERFUMARIA

INSTITUTO DE BELEZA

BARBEARIA SHALOM

Terça-feira, Abril 10

שלי הפסחא

Este ano a minha Páscoa foi diferente. Não só por estar noutro país mas por estar a trabalhar para uma empresa israelita. Aqui, como em Israel, celebrou-se a Pessach, a fuga do Judeus para a Terra Prometida.

No meio de um país africano, tive uma Sexta-Feira Santa e judia. Sentado à mesa entre mais de uma centena de judeus, vi pessoas do mundo inteiro que Israel albergou por partilhar a mesma religião. Dá-nos um lição de tolerância racial, em torno de um conceito mono-religioso, tipo um gelado que pode ser de todas as cores, desde que saiba a baunilha.

A celebração passou-se entre uma variedade de petiscos ditos religiosos, onde cada uma significava alguma coisa. Algumas eram amargas, porque vinham relembrar os anos de escravatura no Egipto; o pão não tinha levedura porque reza o Livro do Êxodo que caiu um pão sem esse ingrediente do céu, para ajudar a fuga do Povo de Israel. E assim fui provando a mitologia judaica, ao sabor de um bom vinho israelita que lembra o Douro do nosso vinho.

O rabino entoava cânticos e liderava a cerimónia. com o seu serviço mexido e descontraído. Era muito jovem e fazia parte de um dito movimento que acredita que as regras dos rituais devem ser mais amenas, com o objectivo de reaproximar os israelitas à prática dos rituais judaicos. Celebrou a Pessach meio em modo Gospel, meio em modo Rockstar. Foi de consenso geral que ele queria agradar a todos sem agradar a ninguém em particular, e nem por isso gostaram do serviço. Eu, que tinha jogado Ping-Pong com o rabino no dia anterior, achei que o serviço dele era excelente.

De resto, havia uns israelitas mais religiosos, outros menos e alguns nem por isso. A celebração teve contornos animados, num ambiente multi-cultural que burburinhava constantemente durante as orações, à medida que os presentes se deleitavam com a simbologia gastronómica.

Assim passei mais uma Páscoa longe da minhas tradições, atento  espectador de carimbo invasor. "Melhor que nada", atira o optimismo. O dia relembrou-me que a religião é uma herança histórica. Não cabe a nós percebê-la, discuti-la ou dissecá-la: é um calor cultural que ultrapassa a sua simbologia e fica aquém do seu significado. Se explicássemos com uma imagem o que é uma celebração religiosa, vir-nos-ia instantaneamente à cabeça não só o ritual de fé, mas as pessoas com quem rimos e celebramos. E esta é sem dúvida a religião mais universal do Universo.

Domingo, Abril 8

O MEU QUARTO E A LUZ DELE

O PARLAMENTO NOSSACASEANO

A empresa que me alberga em terras africanas é israelita. Israel, pensei eu. Não mais pensei, e um dia cheguei. A Nossa Casa é um género de Israel dos pequeninos, não pelo tamanho mas pela cultura maioritária. Aqui há israelitas, brasileiros, romenos e portugueses. No parlamento nossacaseano, Israel tem maioria absoluta, apoiado pelo partido dos brasileiros israelitas - ditos judeus que nasceram no Brasil e se expatriaram em nome de uma religião. Seguem-se os brasileiros brasileiros, os romenos e só no fim os tugueses, uma minoria sem expressão (tive um já-vi). 



A influência mediterrânea faz-se sentir aqui, na tranquilidade e tolerância da coligação romeno-tuguense. Moções aprovadas: futebol, piscina e churrasco nas horas livres. Isto porque entre nós a comunicação nem sempre é oleada, mas à volta de uma cerveja e  de uns mergulhos lá se lubrifica mais um bocado. Claro está, tudo isto sobre o olhar atento e coordenação dos brasileiros, soldados do churrasco, embaixadores da tranquilidade.


Passados os primeiros dias, muito pouco sei de Angola, e alguma coisa sei de Israel. Pouco mais sei do que já sabia do Brasil, e imagino que sei sobre a Roménia o que mais importante há a saber: a comunidade cigana representa apenas três a cinco porcento da população, e os ciganos não são de lá. Aprendi com os erros dos outros a não perguntar: "Gipsys come from Romenia yes?". A resposta, com a alma em evidente ebulição, é sempre um calmo "Why you say this, why everybody say this?!". Seguem-se uns educados dados estatísticos que os ilibam de tal associação, e o sobrolho lá vai relaxando até voltar ao sítio. Imagino que seja o equivalente ao tema que durante anos assombrou os portugueses no estrangeiro - Portugal e a eterna província de Espanha. Será que seríamos assim educados, com o orgulho ferido e fervido, a honra desfeita e desafiada pela ignorância estatística? 


Nunca é fácil ouvir, porque longe de casa somos um país, não somos só uma pessoa. Quando falarem de nós, não vão falar em indivíduos, vão falar em nacionalidades. Se eu tiver um discurso culto, só falar da bola ou for rude, vão dizer que os portugueses são cultos, básicos ou mal-educados, respectivamente. Mas eu sou assim, faço isto por todos vocês, restrinjo os meus espontâneos e ocasionais maus-humores para que no futuro gerações de portugueses tenham fama de pessoas cultas e educadas. 


Donativos para pagar umas cervejas em prol das gerações futuras: 
NIB 0077 0011 00527570007 40

Sábado, Abril 7

DA JANELA PINTEI O CAMINHO PARA CASA

Como não há palavras que descrevam Luanda, deixo-vos o primeiro vídeo da minha rotina. Existem vários lados de um país, várias perspectivas, vários impactos. Este primeiro é inevitável, mas é mesmo assim. São trinta anos de guerra, dez anos de paz e 4 minutos de Chopin.

Quinta-feira, Abril 5

A NOSSA CASA

Em modo de introdução, vou dando uns suportes gráficos para imaginarem a minha vida aqui. Fico alojado no hotel da empresa, a minha nova casa, que por acaso se chama precisamente - A Nossa Casa. A Nossa Casa é um recinto fechado e guardado e rodeado por arame farpeado. A segurança aqui está na ordem do dia, mas eventos recentes machadaram a palavra "segurança", no sentido em que ninguém está a salvo. Aqui tentam que estejamos todos sãos e salvos - em prol da produtividade.


A Nossa Casa tem gerador próprio, logo vive um estatuto de República Independente da Electricidade, num regime tipo Madeira  mas ao contrário, em que se faz jus do estatuto quando deixamos de receber recursos de Luanda. O duche é um sistema bipolar de temperatura, não no sentido eléctrico mas no que toca a humores. Já gelou, já queimou, já pingou e tempestou. Nem o dia começou e já cantei e gritei.


Na lista de Regras do hotel da empresa lê-se: "Se estiver no elevador e a electricidade falhar, saiba que ele irá parar por uns momentos e depois voltará a funcionar normalmente". Obrigado Regras, assim farei. Não vai levar a mal mas agora levo um livro sempre que andar de elevador.

Mas nem tudo se joga ao sabor dos humores da rede eléctrica externa. A Nossa Casa tem cinema, ginásio, piscina, Internet wireless, cantina, lavandaria, telefone público grátis para o estrangeiro e  um rol de regalias bem boas, mas imprescindíveis a quem vive "protegido". Nova regra: não se pode sair sem motorista. Adeus cafezinhos de rotina esplanadeira, adeus bica curta e bom bocado, adeus não temos pode ser um pastel-de-nata.


É inevitável, este criticismo fácil onde tudo parece um problema. A verdade é que nada disto é mau. Queixo-me porque me está nos genes. Até Afonso Henriques, quando já não ia para novo, reclamou umas escadas rolantes no assalto ao Castelo, até Fernando Pessoa se queixou do café queimado da Brasileira. Quem sou eu para interromper a Dinastia?

SALA DE JOGOS

A PISCINA VISTA DE CIMA

A PISCINA VISTA DE BAIXO

O GINÁSIO

O CINEMA

Quarta-feira, Abril 4

O MEU QUARTO E A VARANDA DELE




HÁ AMARGO E MAR, HÁ IR E VOLTAR

Novos episódios. Desta vez, não é uma viagem, é uma aventura, com o mesmo formato daquela que me levou a criar este aventurário. Depois do Império do Tédio, uma cultura oposta, talvez o verdadeiro negativo da cultura finlandesa. Mas Angola pode esperar. Por enquanto, apetece-me ralhar com Portugal.


Na Finlândia, foi crescendo em mim o sentimento de que o país que me viu nascer era o melhor país do Mundo para viver, mas acrescento agora a este lema um pormenor: é o melhor país do Mundo para se viver, mas um dos piores para se trabalhar. Grande apaixonado pela arte tuguesa de viver o momento, da sua espontaneidade e desenrascabilidade, trabalhei cinco anos numa jaula de desorganização e enviesamento de prioridades, de hierarquias pomposas e colegas e-maileses e youtubeiros. Ficou-me forte um episódio repetido da minha curta carreira profissional, onde ouvi por duas vezes zangados chefes irritados comigo: "Mas quem é que manda aqui afinal, ó Sarmento, és tu?!?". Das duas vezes, não percebi. Fiz um Mea Culpa e aprendi a ouvir, a ir com calma, a passar as iniciativas no crivo das hierarquias, porque talvez poderia haver alguma coisa errada com a minha atitude. Enruguei a testa durante anos à procura da resposta anti-envelhecimento. Hoje concluo com firmeza que se calhar não há nada de errado com a minha atitude. Talvez seja um peixe de mar em ambiente doce, salmão a fazer frente a uma forte e contrária corrente. Nas margens ursos atentos: quando tento saltar - clac - barulho de dentes.

Ainda assim, não deixo de sentir uma certa vergonha neste discurso. Ninguém melhor do que um Tuguês para desenvolver teorias sobre a mentalidade menos boa da Tugolândia e dos Tugoleses. Toda a gente tem teorias. Toda a gente se acha diferente. E todos contribuímos e fazemos parte de uma parte do problema. Somos as próprias pessoas que criticamos no nosso próprio "só neste país", no nosso rotineiro "vai-se andando". Não mais criticarei, prometo. Agora, Luanda.















Talvez um pouco amargo com Portugal, resta-me esperar que a Saudade venha em meu auxílio, e que o tempo venha justificar mais um exílio.

Terça-feira, Abril 3

DO AVESSO ME TEÇO


Fui à Índia. Três semanas e alguns comboios depois, cá estou eu. Voltei há dois dias mas ainda lá estou. Tudo, foi tudo tão surreal que ainda tenho aquela sensação de final por acabar, imagem por contar e lenda por provar. Gostei? Sem dúvida. Mudei? Sei que sim mas não sei se não. Uma perspectiva, no mínimo; no máximo uma lição. E que mais..? Não há mais. Se há, deixei tudo por lá. De resto.. "É melhor que fale por nós a nossa vida, que as nossas palavras." (M. Gandhi).


E muito já falei eu.

Quarta-feira, Outubro 22





Sexta-feira, Outubro 10




Sexta-feira, Agosto 31

CAPTURADOS CHEZ MARROCOS







Quinta-feira, Agosto 30